Sunday, July 11, 2010

A sociedade não é um somatório


na edição deste domingo, dia 11 de julho, da Folha de São Paulo, foi publicado no Caderno B um artigo do Sr. Fábio Colletti Barbosa intitulado "Hora da Reforma de Valores". Já quase no final do seu artigo pode-se ler que "uma sociedade nada mais é do que o somatório das atitudes de cada um de nós, de cada uma de nossas empresas". Mas desde Aristóteles se sabe que "o todo é mais do que a soma das partes" e, portanto, a sociedade não resulta de um somatório seja lá do que for, ou de que aspecto se queira considerar. Ou seja, não se pode reduzir a sociedade ao somatório de seus indivíduos. [continua]. Portanto, para além de uma "reforma de valores", precisamos aprender a pensar e agir de maneira diferente, precisamos aprender a pensar e agir de maneira sistêmica, onde "o todo é diferente que a soma de suas partes".

Wednesday, July 07, 2010

Em tempos de Copa do Mundo...


Futebol tem alguma coisa a ver com pensamento sistêmico? Para Fritz Simon e outros autores, tem sim. Simon é o editor do livro "Antes do jogo é depois do jogo. Aspectos sistêmicos do futebol", em que o futebol é tratado de uma perspectiva sistêmica e sociológica. O livro de 197 páginas custa 19,95 euros mas está disponível somente em alemão.

Sunday, June 20, 2010

Aforisma do dia

"Na vida do dia-a-dia, a mentira e a polidez são formas de bondade". Albert Camus.

Sobre Camus

Acabo de concluir a leitura da monumental biografia (877 páginas, mas seguramente não por isso!) de Albert Camus, escrita por Olivier Todd. Camus chamava de verdade "tudo o que continua" e, por isso, podemos dizer que sua obra é verdadeira, porque continua atual e permanecerá assim para várias gerações de leitores. Porque verdadeiro foi o homem Camus.

VI Congresso Brasileiro de Sistemas

Depois de uma longa ausência e de um longo silêncio, retorno para anunciar que está no ar o sítio do VI Congresso Brasileiro de Sistemas, que neste ano será realizado na cidade de Foz do Iguaçú, nos dias 28 e 29 de outubro. Maiores informações a respeito do Congresso poderão ser obtidas diretamente no sítio, cuja URL é http://cbs2010.unioeste.br/default.htm.

Tuesday, September 29, 2009

V Congresso Brasileiro de Sistemas

O V Congresso Brasileiro de Sistemas será realizado nos dias 26 e 27 de novembro, em Aracaju (SE). Neste ano o Congresso terá como temática a "Aplicação do Pensamento Sistêmico no Ensino, na Pesquisa e na Extensão". A palestra de abertura será realizada pelo renomado Prof. Richard Bawden, Visiting Distinguished Professor da Michigan State University e Professor Visitante da Open University, UK. Maiores informações poderão ser obtidas no endereço http://www.vcbs.ufs.br

Wednesday, July 29, 2009

Quando "feedback" não é feedback...

A palavra feedback, muitas vezes traduzida como retro-alimentação, é bastante conhecida e de uso bastante generalizado. É até mesmo bastante comum ouvir alguém pedindo "feedback" para algo que falou ou escreveu (em uma conferência, por exemplo), quando então é sinônima, quase sempre, de crítica. No entanto, como aponta John D. Sterman em seu livro Business Dynamics. Systems thinking and modeling for a complex world, não é este o significado de feedback em dinâmica de sistemas. Feedback é um processo que opera em um sistema (continua...)

Monday, March 23, 2009

23 de março: Florianópolis "completa" 283 anos. Sempre mais do mesmo?

O futuro não é dado, mas aberto, e não é a simples continuação do presente. Em relação à cidade de Florianópolis porém, não parece que este entendimento seja muito presente (continua...)

Tuesday, February 17, 2009

VIVER E PUBLICAR

Submeti o texto abaixo para publicação no Boletim Informativo da Sociedade Brasileira de Ciência do Solo. Eu explico: na última edição do Boletim em 2008, vários sócios da citada Sociedade escreveram artigos a respeito da questão "publicar ou perecer". Como também sou, por força do ofício, sócio desta Sociedade, achei que também poderia manifestar minha opinião (distinta) a respeito...

“Eu afirmo que o único objetivo da ciência é aliviar a miséria da existência humana”. (Bertold Brecht).

Com sua famosa peça Leben des Galilei (Vida de Galileu), da qual foi extraída a frase para a epígrafe deste texto, Bertold Brecht queria chamar a atenção para a responsabilidade social da ciência e dos cientistas. A peça de Brecht nos convida a pensar, portanto, no objetivo da ciência, e qual é o papel que nós, cientistas, temos na sua demarcação. Porém, ainda que se possa pensar em objetivos diversos, para épocas e lugares distintos, ouvi de um Professor (que publica bastante e que usufrui das benesses do “sistema de recompensa científica vigente no País”) que “o objetivo da ciência é publicar”. O “publicismo” produziu, assim, um reducionismo de fins na Ciência. Afinal de contas, entre publicar e perecer, fica-se com a primeira opção. Trata-se, antes de tudo, de se salvar a própria pele! Mas moral e eticamente é aceitável pensar que o objetivo da ciência seria publicar, ou de que a publicação seria uma forma de “prestar contas à sociedade” pelos investimentos públicos em pesquisa? Ou ainda, de que um “sistema de recompensa científica” devesse ser baseado em publicações? A propósito, precisamos de um “sistema de recompensa”? Para que?

Com efeito, se o nosso compromisso for mesmo o de não nos submetermos indiscriminadamente à pressão para publicar, é preciso enfrentá-la apontando como superá-la, sob pena de jogarmos o bebê fora com a água do banho. Assim, por exemplo, é preciso apontar as origens e implicações de um “sistema de recompensa” baseado em pressão para publicar, quem o engendra e o mantém, quem dele se beneficia, etc. Para mim, estas questões não foram abordadas suficientemente nos artigos sobre “publique ou pereça” na última edição do Boletim Informativo. A própria razão para o Boletim tratar deste assunto é, de certa forma, oculta, não explícita. Senão vejamos. Por que este assunto poderia interessar aos sócios da SBCS para ser abordado em seu Boletim? Certamente não há uma única razão, mas é certo que a pressão para publicar tem causado um descontentamento generalizado que não está relacionado exclusivamente às exigências em si de produtividade científica “impostas” pelas agências de fomento à pesquisa e formação de recursos humanos no País, mas muito mais às limitadas possibilidades para alcançar os níveis exigidos e às razões para sua existência.

O descontentamento não resulta, portanto, da exigência de produtividade, já que não se trata de refutar a importância e a necessidade de publicar. Publicar faz parte da atividade científica. Ocorre, porém, que subjacente ao “sistema de recompensa” baseado na produtividade científica opera um vigoroso feedback de reforço: em termos gerais, pode-se dizer que quem publica mais recebe mais recursos para pesquisa, que por sua vez possibilita aumentar o número de publicações, num ciclo de reforço contínuo. Como resultado, os volumes mais expressivos de recursos para a pesquisa tendem a se concentrar cada vez mais (por região, por instituição, por pesquisador). Em outras palavras, quem já tem muito financiamento para pesquisa recebe cada vez mais recursos (individual e institucionalmente), restando aos demais, a disputa pelas migalhas, dificultando o acesso às benesses do “sistema de recompensa”. Daí o descontentamento.

Além disso, se é verdade que o aumento vertiginoso do número de publicações científicas (número de periódicos e número de artigos científicos) não resulta somente da pressão para publicar mais, mas resulta também da própria expansão da pesquisa científica como atividade humana no mundo todo, o “publicismo” reforça ainda mais esse crescimento. Vivemos hoje a era da indústria científica, e a pressão para publicar produziu o que denomino de fordismo científico. Agora, artigos científicos são produzidos em massa (basta verificar o crescimento da RBCS!), como em uma linha de montagem: do estudante de iniciação científica ao pós-doc, todos juntando partes para o mesmo resultado final - o artigo científico. É curioso observar que, neste processo, a lógica da produtividade é a lógica da repetição, e não da criação, da novidade. Como resultado, temos cada vez mais cientistas e menos Ciência, sem que aqueles estejam, inclusive, muito cientes disso.

Por conta disso e como em um processo industrial, o que se produz em grande quantidade também precisa ser avaliado quanto à sua qualidade. Todavia, o argumento falacioso mais recente, é de que o número de citações de um artigo ou de um periódico, medidos pelo Fator de Impacto (FI), seria uma medida de qualidade do que se publica. O pressuposto implícito aí é de que quanto melhor o artigo (ou o periódico), mais ele seria citado. Por várias razões esse argumento não se sustenta. Assim como a Ciência é sempre contextual, ela também é produto do seu tempo. Ou seja, para além da qualidade ou não, um artigo que aborda um assunto “da moda” (e que recebe, por isso, mais financiamento), tende a ser mais citado. Talvez como exemplo extremo desta situação, possa-se lembrar o artigo fraudulento sobre células-tronco publicado na Science por um cientista sul-coreano. Imagine-se só o FI deste artigo, que não passava de uma fraude (chancelada, durante certo tempo, pelo “peer review”, dado até então como praticamente infalível). Em outras palavras, o FI de um artigo pode ser construído, fabricado ou, o que me parece a melhor expressão, forjado, independentemente de sua qualidade. Ainda assim, o problema não está no FI, ou de que se monitore o FI de pesquisadores. O problema é utilizar o FI como instrumento de política científica ou de um “sistema de recompensa”. A pressão para publicar e a obsessão pelo FI são, assim, a expressão de um tipo de fundamentalismo: o científico, em que os meios para se fazer Ciência antes de serem valorizados, são desrespeitados.

Todavia, para justificar tudo isso, tem sido dito que a pressão para publicar é uma forma de “prestar contas à sociedade” pelos investimentos feitos em pesquisa. Desde quando “a sociedade” lê artigos científicos? Ora, este é outro argumento falacioso, e o “publicismo” não pode, de forma alguma, ser considerado uma forma de “prestação de contas à sociedade” como pretendem alguns. Isso não faz o menor sentido, já que “a sociedade” simplesmente “não dá a menor bola” para a produtividade ou para o Fator de Impacto! Por isso, é inaceitável que a pressão para publicar resulte da intenção de prestar contas. Na melhor das hipóteses, é um instrumento de acompanhamento, cômodo e equivocado é bem verdade, por quem se diz ou é responsável pela gestão de fundos públicos para pesquisa. E o que é pior, muito amiúde o FI é tomado como o oráculo supremo desta suposta prestação de contas, a ponto de se assumir que quanto maior aquele, melhor seria esta, inclusive para a sociedade.

Evidentemente, como já se disse, não se pretende aqui negar a importância de se publicar. Longe disso, mas o que precisa ser apontado de maneira clara é porque as coisas são assim do jeito que são, já que a pressão para publicar não é fruto do acaso e nem tampouco é “natural”. Isto é um aspecto muito importante. De forma alguma o “publique ou pereça” pode ser considerado como algo que aconteceu naturalmente (uma breve história pode ser lida em http://en.wikipedia.org/wiki/Publish_or_perish). A pressão para publicar resulta da ação consciente de nossos colegas professores e pesquisadores que nos representam, por exemplo, na CAPES e no CNPq. São eles que, motivados por razões diversas, ano após ano refinaram o “sistema de recompensa” baseado no “publique ou pereça”. Se publicar ou perecer é uma imposição, então ela se deve mais aos nossos colegas (e a nós mesmos) do que por vontade de alguma deidade. E isso não tem nada de “natural”, assim como também não resultou “naturalmente” do processo de consolidação da formação de recursos humanos e da pesquisa no Brasil. Aliás, no Brasil, a pressão para publicar resulta antes de um mimetismo científico (não foi por aqui que se inventou o “publique ou pereça”). Portanto, apontar que a pressão para publicar seja algo natural não passa de um subterfúgio, consciente ou não, para ocultar as causas que a fizeram surgir e que a mantém, o que dificulta, se não impede, que sejam criadas as circunstâncias para a sua superação.

Mas então, o que fazer? A mudança começa necessariamente pelo reconhecimento de que a pressão para publicar não é nem uma imposição de origem desconhecida nem é “natural”, mas é um instrumento de recompensa ou de punição, dependendo da perspectiva, organizado pela própria comunidade científica e acadêmica. Portanto, se a origem da pressão para publicar está em nós mesmos, também é em nós que se encontram as possibilidades de mudança. Assim, por exemplo, se no sistema de recompensa baseado na produtividade científica operam vigorosos feedbacks de reforço, como foi discutido, nossos colegas que nos representam nas agências de fomento precisam defender, com o apoio de sociedades científicas como a SBCS, a implementação de feedbacks de equilíbrio. Ou seja, de que a distribuição de recursos para a pesquisa não se baseie exclusivamente na produtividade científica ou no FI. De outro modo, dificilmente poderemos superar este tipo de fundamentalismo científico baseado na pressão para publicar.

Por tudo isso, enquanto se aumenta a pressão para publicar, penso que o movimento deveria ser o inverso. Faço deste documento, portanto, um libelo inicial pelo movimento “slow publishing”: pensar mais, publicar menos, publicar melhor. Mesmo porque não se trata de viver para publicar, nem tampouco publicar para viver, e muito menos ainda de “publicar ou perecer”, mas tão somente viver... e... publicar, as vezes! E publicar para viver melhor, para ajudar a “aliviar a miséria da existência humana”. O que não é pouco, convenhamos!

Friday, January 02, 2009

O mundo pós-americano


Terminei hoje a leitura de "O mundo pós-americano" de Fareed Zakaria. Apesar de leitura fácil, para mim o autor retrata o papel dos Estados Unidos no século XX de maneira exageradamente positiva. Apesar das muitas referências à Guerra Fria, o autor não faz nenhuma referência ao bloqueio americano à Cuba (no índice remissivo não consta o verbete "Cuba"), ou à ingerência da CIA em muitos países latino-americanos. É bem verdade que o argumento central do livro pretende ser outro (a ascensão de países emergentes, notadamente China e Índia, com breves referências inclusive ao Brasil), mas ao fazer uma leitura demasiadamente positiva do papel dos Estados Unidos, ficou a impressão em mim de que se trata de uma análise um tanto "ingênua" da relação deste país com os emergentes.

Feliz 2009!


Mais uma passagem de ano, e a cada ano que passa tenho a sensação renovada de "déjá vu". As muitas queimas de fogos de artifício (com dinheiro público !) anunciam como grande novidade o prolongamento do "espetáculo" (vivemos mesmo a "sociedade do espetáculo"). O objetivo é sempre um novo recorde... É sempre mais do mesmo...e é curioso observar a ansiedade das pessoas ao aguardarem pelo "espetáculo ' da passagem do ano... talvez o reflexo de uma fantasia coletiva... a fantasia de que pelo menos por alguns instantes, a vida pode ser mesmo "iluminada"!
FELIZ ANO NOVO! BOA SORTE EM 2009!

Thursday, November 27, 2008

Capra em Florianópolis: incoerência sistêmica?

Depois de uma longa ausência, resolvo retomar os posts no meu blog, com uma breve reflexão sobre a participação de F. Capra na EcoPower em Florianópolis, no dia 12 de novembro. Com isso, de certa forma também volto a me manifestar sobre a EcoPower, que pretende ser uma "feira de negócios" que de "Eco" tem realmente muito pouco, ou quase nada. E agora, para variar, F. Capra, com a sua presença como palestrante de abertura, avaliza o evento, o que me parece ser uma grande incoerência sistêmica de sua parte, como comentarei a seguir (continuarei em breve).

Monday, May 19, 2008

Aforisma do dia

"To see or not to see; that´s the system"

Tuesday, February 26, 2008

Termodinâmica e Sustentabilidade

Em artigo publicado na Folha de São Paulo no dia 06 de janeiro deste ano, o Prof. José Eli da Veiga discute alguns aspectos relacionados ao discurso do ambientalismo, entre os quais a necessidade de observar as imposições da Termodinâmica, particularmente aquelas que docorrem da Segunda Lei, que trata da entropia. Lembro-me que certa vez ao buscar o Prof. José Eli no aeroporto de Florianópolis, ao conversarmos sobre o Programa de Pós-Graduação em Agroecossistemas e as suas atividades, relatei de que procurávamos abordar a discussão sobre sustentabilidade de um ponto de vista termodinâmico, sobretudo as implicações da Lei de Entropia. Naquela ocasião, conversamos também sobre a importância da obra (The entropy law and the economic process) do economista Georgescu-Roegen, que já na década de 70 do século XX discutia a Economia de um ponto de vista termodinâmico e de quanto esta obra era (e é) desconsiderada. Algum tempo depois, o Prof. José Eli organizou em São Paulo um seminário sobre Georgescu-Roegen e sua obra. O artigo completo pode ser lido em http://www.zeeli.pro.br/artigos_folha/2008_01_06_ambientalismo.pdf

Wednesday, January 02, 2008

Prelúdio de Ano Novo...

No despertar de um novo ano, como seria bom se um pensamento solene pudesse me socorrer... Mas sai ano, entra ano, e é cada vez mais certo de que “todas as garrafas que mais uma vez lançarei ao mar com mensagens ao desconhecido ou voltarão sem resposta ou com o texto corrigido”. É a melhor metáfora que me ocorre por ora para expressar a certeza da incerteza... Por outro lado, de certo mesmo só a marcha inexorável de meu sangue para o lugar de sua quietude (para não esquecer o poema asteca). Por isso, lembrando Fernando Savater (em Ética para meu filho), não devemos esperar "milagres salvadores nem dos novos séculos nem dos novos milênios, pois nenhum calendário traz realmente nada de novo à vida dos homens". Devemos confiar apenas em nós mesmo e nossos semelhantes, "naquilo que podemos fazer todos juntos - bastando querer de verdade". Que venha 2008! Feliz Ano Novo!

Tuesday, December 18, 2007

O discurso de Saramago

De tudo que li durante este ano, o texto que mais me emocionou foi, sem dúvida, o discurso que Saramago proferiu ao receber o Nobel de Literatura. O discurso leva por título "De como a personagem foi mestre e o autor seu aprendiz", que começa assim: "O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. Às quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia, Azinhaga de seu nome, na província do Ribatejo. Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro."[...]"...e este foi o meu avô Jerónimo, pastor e contador de histórias, que, ao pressentir que a morte o vinha buscar, foi despedir-se das árvores do seu quintal, uma por uma, abraçando-se a elas e chorando porque sabia que não as tornaria a ver". O discurso completo pode ser lido em
http://nobelprize.org/nobel_prizes/literature/laureates/1998/lecture-p.html

Quando a gestão ignora efeitos sistêmicos

Simon Caulkin, na edição do dia 25 de novembro do The Observer, faz um interessante diagnóstico da causa dos problemas de gestão no Reino Unido, e lembra Russel Ackoff, para quem "os problemas nas organizações são quase sempre o produto de interações de partes, e nunca a ação de uma parte única". O artigo completo pode ser lido em:
http://www.guardian.co.uk/business/2007/nov/25/scamsandfraud.businessandmedia

Friday, December 14, 2007

CPMF e Pensamento Único

Para além da pertinência ou não da CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentações Financeiras), o que se (ou)viu nos últimos dias no Brasil, e em particular no Senado Federal, nas discussões que envolviam a prorrogação ou não deste imposto até 2011, chega mesmo ao ridículo. De um lado, os “defensores” do imposto (o Governos e seus aliados), outrora contrários; de outro, os seus “criadores” (DEM, PSDB), que agora o rejeitam. Esse “nosso tempo” já recebeu todas as denominações possíveis, mas é certo que vivemos uma era de perplexidades. E some-se a isso tudo o que vou chamar de “ditadura do pensamento único”, extremamente reducionista, e influenciado, sobretudo, pelo “economês”. O que se pôde ouvir um dia após a rejeição da prorrogação da CPMF beira ao inacreditável, coisas do tipo “agora R$ 40 bilhões voltarão à economia”, como se fosse possível subtrair alguma coisa dela (mesmo o sistema financeiro, para o qual “drena” grande parte da receita auferida com os impostos para o pagamento do superávit primário, também faz parte da economia...). Além disso, ao se propor que o Estado deva agora fazer os cortes necessários levando em conta a diminuição de receita, a exemplo do que se faria na iniciativa privada, finge-se ignorar por completo que o Estado (republicano, sobretudo) necessariamente tem propósitos muito distintos dos de uma empresa. Enquanto esta em um sistema capitalista visa o lucro, aquele deverá visar o bem-público, a proteção dos menos favorecidos, etc, etc, etc. Em resumo, o que se pôde ouvir nos últimos dias decorre da hegemonia de um pensamento fragmentado, redutor e por isso mesmo conservador (não se está fazendo nenhum juízo de valor), além, é claro, das disputas políticas de sempre em um Estado democrático. Como “remédio” para tudo isso e para esses tempos, resta-me Cioran (em “Breviário de Decomposição”), e é uma pena mesmo que “não haja nas farmácias nada específico contra a existência”.

Friday, December 07, 2007

Tudo é dito por um observador

O que nós vemos das coisas são as coisas.
Por que veríamos nós uma coisa se houvesse outra?
Por que é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?

O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.

Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma sequestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores,
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.

Fernando Pessoa
(poema XXIV de "O Guardador de
Rebanhos", segundo "Alberto Caeiro")

Thursday, December 06, 2007

Flaubert e eu

Com a proximidade do fim de ano, e a pressão permanente para publicar, peço licença a Flaubert e faço minhas suas palavras:

"Estou mais cansado do que se empurrasse montanhas. Há momentos em que tenho vontade de chorar. É preciso uma vontade sobre-humana para escrever e eu sou apenas um homem.[...] E qual o fim de tudo isto? O resultado? Amarguras, humilhações internas, nada em que se amparar a não ser a ferocidade de uma fantasia indomável"