Friday, December 07, 2007

Tudo é dito por um observador

O que nós vemos das coisas são as coisas.
Por que veríamos nós uma coisa se houvesse outra?
Por que é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?

O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.

Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma sequestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores,
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.

Fernando Pessoa
(poema XXIV de "O Guardador de
Rebanhos", segundo "Alberto Caeiro")

2 comments:

Giane K B Nunes said...

Há algum tempo atrás diria que se tratava de coincidência, no entanto atualmente percebo que é uma questão de observação...

Trecho de um e-mail que recebi na data de hoje (11/12/2007) logo após ler este texto no seu blog:

"ESCUTATÓRIA (por Rubem Alves)

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de
escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a
ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que
ninguém vai se matricular.

Escutar é complicado e sutil. Diz Alberto Caeiro que "não é bastante
não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter
filosofia nenhuma".

Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as
coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.

Parafraseio o Alberto Caeiro: "Não é bastante ter ouvidos para ouvir o
que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma". Daí a
dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar
um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente
tem a dizer.

Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração
e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que
é muito melhor.

Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de
nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos...

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos
estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os
índios.

Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio.
(Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam
assentados em silêncio, abrindo vazios de silêncio, expulsando todas
as idéias
estranhas.). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí,
de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem.

Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande
desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que
ele julgava essenciais. São-me estranhos. É preciso tempo para
entender o que o outro falou. Se eu falar logo a seguir, são duas as
possibilidades.

Primeira: "Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi
o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria
falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não
tivesse
falado".

Segunda: "Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade
eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem
preciso pensar sobre o que você falou".

Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que
uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: "Estou ponderando
cuidadosamente tudo aquilo que você falou". E assim vai a reunião.

Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de
pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a
ouvir coisas que não ouvia.

Eu comecei a ouvir.

Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se
ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras.

A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa.

No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos
todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos
saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão
linda nos faz chorar."

Carolina Velloso said...

"Se conhecêssemos a verdade, vê-la-íamos; tudo o mais é sistema e arrabaldes".
(Fernando Pessoa)